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Aquecimento

março 18, 2009

Era hora de acabar com o que já estava morto há muito tempo. Era hora de oficializar o término. Não podia ser coisa rápida, queria sentir cada momento de desespero transformando-se em êxtase. Queria sentir o corpo apodrecendo. Queria explodir todas as partes. Despedaçar tudo. Mas uma explosão é instantânea, uma bomba não seria a solução. Queria arder por horas. Estar como no Inferno. Queimar qualquer pedaço que teimava estar vivo. Em chamas, queria matar o corpo.

Acendi a fogueira de fogo funesto. Era ali que me cremaria, em meio às labaredas. Pisei no calor ardido e finquei todo corpo. Nesse exato momento senti o fúnebre bafo envolvente. Agora, meu corpo pertencia somente ao fogo e o fogo, feroz, me consumia. Subia quente pelas pernas, percorria veias, aquecia ossos, passava entre os órgãos cozinhando cada célula. Extasiava-me ver as faíscas de cores avermelhadas misturarem ao sangue vermelho vivo, que depois ia se tornando negro. Eram minhas cores derretendo.

Eu parada ali, carbonizando. Sentia tudo único. Sentia prazer a cada ardor. A pele rasgando, os tecidos ressecando e abrindo feridas profundas. O cabelo fritando e cheirando a churrasco na brasa. Os dentes rangendo e fazendo um tirilintar irritante, mas que também chegava a ser fantasticamente agradável. A língua fervendo não sentia mais gosto algum. Também não havia mais como abrir a boca e gritar. Não queria gritar de dor, se fosse gritar era por liberdade. Os olhos ardiam mais do que a pimenta mais picante. Saíram lágrimas que rapidamente evaporaram. De tão incendiados, meus olhos chegaram a explodir. Respingos de olhos flamejantes. A visão do meu mundo antigo se dissipou para qualquer lado.

O calor não era apenas externo, meu interior exalava a ardência de um orgasmo que nunca havia sentido antes. Era como a junção inflamável de febre, sexo e menopausa. Tudo estava a altas temperaturas, mais quente que o centro da terra. Era um vulcão borbulhando larvas.

Depois de primeiros, segundos, terceiros e quantos mais graus de queimaduras, o corpo estava tostado. Ossos, órgãos e pele eram fragalhos. Não se sabia mais que aquilo era corpo. Apenas pó. Qualquer pó misturado aos fiapos de madeira. O fogo baixo ainda se mantinha e me assentava como uma cama quentinha.

O vento passou e levou parte das cinzas, para a praia próxima. O povo pisando em minhas micro-partículas. Meus restos junto aos castelos de areia. Conforme anoiteceu, a alta maré me arrastou para as ondas, até que cheguei a profundezas oceânicas. Parte de mim, ainda levada pelo vento, passeava em fragmentos pelas ruas, se arrastando em meio à sujeira. Entrando e saindo dos móveis de casas. Ainda, outra parte foi carregada por uma grande corrente de ar no alto, sobrevoando cidades de todos os tipos, grandes ou pequenas, avistando construções e pastos. 

Então, estava eu em todos os lugares. Mar, terra, ar. Renascida como uma Fênix. O fogo aqueceu em mim o que estava congelado. Minha essência antes morta é que agora nasceu. Engraçado, mas só fui viver depois da morte. Até agora só foi um aquecimento!

Yvone Delpoío

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